Montagem
reflete sobre as diferenças em encenação lúdica e bem humorada, onde a música
ao vivo, criada por Dr Morris, tem papel de destaque na dramaturgia.
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Foto por Murilo Alvesso |
Inspirado em obra
homônima de Eva Furnari, com dramaturgia de Sérgio Pires e
direção de Cris Lozano, a Cia. Barracão Cultural segue com
o espetáculo NÓS, durante o mês de julho.
As apresentações
são grátis e ocorrem no Parque Previdência (dia 6/7 - sábado), e Parque
Raposo Tavares (dia 7/7 - domingo), em duas sessões: às 11h e às 15h. Na
sequência, a peça cumpre temporada no Sesc Pinheiros (do dia 13 ao
20/7), aos sábados e domingos, às 16h.
A montagem - que
narra a trajetória de Mel, uma garota que tinha nós pelo corpo, pois não conseguia
chorar - tem Eloisa Elena, Leandro Goulart, Lucas Nuti e William
Simplício no elenco, direção musical de Dr Morris, cenografia de Marco Lima
e figurino de Marichilene Artisevskis. Este é o terceiro espetáculo de rua da
companhia, que já realizou os bem sucedidos O Tribunal de Salomão (2011)
e A Condessa e o Bandoleiro (2014).
O enredo NÓS, Mel é uma
garota que nasceu de um repolho mofado, na
pequena Pamongas, onde vivia feliz e rodeada
de borboletas: motivo de brincadeiras e
zombarias por parte dos habitantes 'normais' da cidade. Um dia, de tanto
segurar as mágoas e o choro, que não caia nem mesmo descascando cebolas, seu corpo ficou cheio
de nós, cada um mais apertado que o outro. Diante disso, resolveu ir
embora para um lugar distante, e saiu disfarçada de geladeira. Mel não sabia
que havia tantas coisas para conhecer. Cinco nós foram necessários para que ela
se aventurasse. À medida que se permitiu vivenciar cada coisa diferente na
jornada, seus nós foram se desfazendo. Ela encontrou alguém que ganhou sua
confiança e uma cidade onde cada um tinha seu próprio nó e ninguém
ligava para isso.
O principal
argumento para a Barracão Cultural montar um espetáculo a partir de um livro de
Eva Furnari é sua habilidade em abordar temas sensíveis e polêmicos de forma
objetiva, lúdica e fantástica. Em NÓS, ela propõe uma reflexão
sobre temas como diversidade, intolerância, respeito e alteridade. A relação
que se estabelece entre as características peculiares de Mel e a relação com o
ambiente onde vive gera “nós” em seu corpo e a obriga a realizar uma jornada de
autodescoberta.
“Essa menina traz
uma coisa bela e poética para o mundo, que são as borboletas, mas a
consequência por ser diferente é se tornar uma pessoa deslocada e com marcas no
corpo”; comenta a atriz Eloisa Elena, que vive a personagem. “Acreditamos que
falar sobre os temas propostos por Eva é uma questão urgente, com potencial
para encontrar ressonância entre os mais diversos públicos e estimular a
convivência e o respeito”, completa. Ela ainda ressalta que NÓS
não mostra somente o lugar da dificuldade, nem retrata a resignação na dor.
“Mel representa a força de vontade, a busca. Ela não esmorece no desejo de
encontrar o seu lugar no mundo”.
Para a diretora
Cris Lozano, “o micro-bullying, aquele que pode ser praticado quase sem
perceber, não é apresentado como julgamenteo ou denúncia, mas como propulsor da
autorreflexão”. Isso é colocado em cena de forma leve, em uma encenação lúdica
e cheia de humor. A narrativa passa pelo realismo fantástico, deixando livre o
imaginário do público. Lozano explica que a encenação busca inserir o
espectador na história, fazê-lo pensar sobre como agiria diante daquela
situação e também entender que não se deve tratar com naturalidade a
banalização das diferenças.
O espetáculo tem um
coro de vozes masculinas que, segundo a diretora, pode representar o
patriarcado, mostrando como essa menina é vista, a partir de uma questão bem
mais forte que a poética. “Esse coro traz a herança polifônica do coletivo
masculino que espera da mulher um comportamento limitado do que não é poético”.
Os atores-músicos se revezam nas personagens que surgem na trajetória da
menina: adolescentes, homens de negócios e trio de vacas malhadas, entre
outros. Mas um dos garotos não se encaixa, exatamente, na posição de
antagonista; ele tem afeição por Mel, mas não vai contra a posição dos colegas.
A trilha sonora
original, criada por Dr Morris, é tocada ao vivo pelos atores. A Barracão
Cultural tem o privilégio de ter como integrante um diretor musical. A cada
espetáculo, a sonoridade vem sendo um dos fatores determinantes nas montagens.
Em NÓS, reverencia o artista popular de rua que, além de
interpretar e narrar, também canta e toca os instrumentos. “Algumas canções têm
papel fundamental na trama, seja dramatúgico, poético ou narrativo”, comenta Dr
Morris. Ele ainda acrescenta que buscou por uma sonoridade que fosse além do
popular e trouxesse originalidade e graça. “Conseguimos isso com o violão de
nylon, os tambores, a marimba de porcelanato e a marímbula, uma espécie de
calimba grave e grande, que foi construída pelo ator Leandro Goulart”, explica
o músico.
O cenário é uma
microarena com uma ‘estação’ para os músicos e seus instrumentos,
possibilitando ao público ver o espetáculo de vários pontos de vista, de acordo
com a posição em que se encontra. O cenógrafo Marco Lima conta que se inspirou
no repertório imagético da literatura de Eva Furnari para criar um cenário
alegórico. “Fizemos um recorte que transporta o universo da autora para o palco,
tirando o espectador do cotidiano e situando-o em outro espaço”, explica o
cenógrafo. Nada realista também é o
figurino. “Temos um pezinho no circense”, brinca Marichilene Artisevskis. A
figurinista diz que buscou exaltar a fantasia tanto nas vestes e adereços como
nas cores utilizadas.
Foram programadas
30 apresentações de NÓS, todas em espaços públicos, ao ar livre. A
estreia oficial, em junho, foi no Parque da Aclimação, e a montagem seguiu para
o Parque do Povo e Jardim da Luz. As sessões correm também durante o mês de
agosto.
Ficha
técnica
Texto:
Livre adaptação da obra de Eva Furnari. Dramaturgia: Sérgio Pires. Direção:
Cris Lozano. Elenco: Eloisa Elena, Leandro Goulart, Lucas Nuti e William
Simplício. Direção musical e canções originais: Dr Morris. Cenografia:
Marco Lima. Figurinos: Marichilene Artisevskis. Coordenação técnica:
Maurício Mateus. Confecção de cenografia e adereços de cenografia e figurino:
Tetê Ribeiro, Lucas Luciano e Fábio Ferretti. Orientação de movimento
e coreografias: Andrea Soares. Aulas de beatbox: Thiago Mautari.
Aulas de saxofone: Leonardo Muniz. Construção da marimbula: Leandro
Goulart. Confecção de escada e suporte dos instrumentos: Ciro Schu.
Costureiras: Judite de Lima e Marinil Ateliê. Design gráfico:
Cláudio Queiroz. Ilustrações do material gráfico: Marina Bethanis.
Fotos de divulgação: Henk Nieman. Coordenação e facilitação dos
encontros com jovens: Cláudio Queiroz. Direção de vídeo-documentário:
Murilo Alvesso. Assessoria de imprensa: Eliane Verbena. Produção
executiva: Geondes Antônio. Direção de produção: Eloisa Elena.
Administração: Tetê Ribeiro. Produção e realização: Barracão
Cultural. Apoio: 7ª edição do Prêmio Zé Renato de Apoio à Produção e
Desenvolvimento da Atividade Teatral para a Cidade de São Paulo.
Apresentações
– Julho/2019
GRÁTIS
6 de julho. Sábado,
às 11h e às 15h
Parque Previdência
Rua Pedro
Peccinini, 88 - Jardim Ademar, Butantã. SP/SP.
7 de julho.
Domingo, às 11h e às 15h
Parque Raposo
Tavares
Rua Telmo Coelho
Filho, 200 – Jardim Olympia, Butantã. SP/SP.
13, 14, 20 e 21 de
julho. Sábados e domingos, às 16h
Sesc Pinheiros
– Praça
Rua Paes Leme, 195, Pinheiros. SP/SP. Tel:
(11) 3095-9400
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