Primeira
montagem da Companhia, em 1996, faz agora releitura dialética para os dias correntes
com direção de Marcelo Marcus Fonseca.
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| Marcelo M Fonseca, Daniel Ortega (foto: Kym Kobayashi) |
O
Teatro do Incêndio comemora 30 anos
de atividades ininterruptas em 2026 e volta ao palco com a releitura de sua
primeira montagem, Baal - O Mito da Carne, de Bertolt Brecht, com direção de Marcelo Marcus Fonseca, fundador da
companhia. Com estreia no dia 29 de
agosto, sábado, às 20h, a peça, foi produzida com apoio da sociedade civil,
sem verba institucional, e apoiada em sua bilheteria.
A
primeira produção foi um dos maiores sucessos do grupo, permanecendo por dois
anos em cartaz com temporadas no Teatro Oficina e apresentações em 10 unidades do
Sesc São Paulo - interior e Vila Mariana.
A
montagem atual se deu pela recusa do Teatro do Incêndio em fechar suas portas
para o público diante da falta de subsídio. “Não aceitamos a paralização, essa
situação imposta pela precariedade das políticas públicas para a Cultura em São
Paulo”, diz Marcelo Marcus Fonseca, 55, diretor artístico do grupo. “É uma
questão urgente, que precisa ser enfrentada, e a montagem tem como objetivo
manter o Teatro do Incêndio em atividade, reabri-lo exercendo sua vocação:
fazer Teatro, Anarquia e Repertório”, conclui.
Baal é inspirado no deus
fenício da fertilidade e fecundação. Na peça, ele representa o retorno do homem
à sua essência mais primitiva e selvagem. Rejeitando as regras da sociedade,
Baal explora seus desejos sem culpa, cruzando limites entre o encantamento e a
destruição, amoral, mas em um mundo amoral. Baal - O Mito da Carne conta
a história do amor dilacerado entre Baal (Fonseca) e Ekart (Daniel Ortega), com
referências ao tórrido romance vivido entre Rimbaud e Verlaine. Juntos, eles
caminham pelo mundo deixando corpos e poesias por onde passam, ao mesmo tempo em
que são consumidos por esse mundo. Formando um triângulo amoroso com Sophie
(Stella Rocha), estendem ao público uma conturbada discussão dialética sobre
empatia. “Baal e Ekart não se encaixam em nenhuma definição de gênero e para
eles pouco importa. Isso quer dizer que não é possível rotula-los, defini-los”,
comenta o diretor. O espetáculo sugere que, numa sociedade controlada pelo
capital, onde as atitudes se tornam mecânicas e insossas, só uma força
transgressora pode despertar as pessoas para a vida.
A
montagem coloca em discussão temas como a misoginia, falsa moralidade, a
imposição religiosa, a castração sexual e a valorização do dinheiro acima da
vida. Encenada com toques surrealistas, característica do Teatro do Incêndio, em
cena pode-se ver uma fusão de linguagens diversas de outras vanguardas
históricas como expressionismo e realismo. Dessa obra primeira de Brecht,
escrita pelo autor em sua juventude, e reescrita mais tarde, cinco vezes, o
Incêndio cria uma dramaturgia composta entre todas as versões, sem perder a
espinha dorsal proposta pelo autor.
Em
cena, 12 artistas com música ao vivo traduzem o humor cínico e niilista de
Brecht (em consonância com os dias atuais) em clima de cabaret ou em cenas
grotescas também humoradas, perante o horror.
Esquenta Baal - Aos domingos
acontece o Esquenta Baal, a partir das 18h, para quem tiver ingresso comprado.
Esse público é convidado a entrar antes no teatro, levar seu vinho e beber em
convívio com o elenco na preparação para a sessão.
FICHA
TÉCNICA
- Texto: Bertolt Brecht. Dramaturgia e direção geral: Marcelo
Marcus Fonseca. Direção musical:
Dedéco. Elenco: Daniel Ortega, Marcelo Marcus Fonseca, Josemir Kowalick,
Anna Bia Viana, Stella Rocha, Cristiano Sales, Isabella Imparato, Lucas Costa,
Rafaella Thomé e Leonardo Chagas. Assistência
de direção: Stella Rocha. Iluminação:
Rodrigo Sawl e Isabella Imparato. Música
ao vivo: Dedéco e Xantilee Jesus. Trilha
mecânica: Marcelo Marcus Fonseca e Dedéco (edições). Versão das músicas: Wanderley Martins. Versão das canções “A Moça Afogada” e “Canção da Privada”: Marcelo
Marcus Fonseca. Figurinos e adereços:
Olivia Albergaria e Stella Rocha. Costureira: Tereza Valério. Fotos: Kym Kobayashi. Assessoria de imprensa: Eliane Verbena.
Produção: Vanda Dantas e Marcelo
Marcus Fonseca. Realização: Teatro
do Incêndio.
Serviço
Espetáculo:
Baal
- O Mito da Carne
Estreia:
29 de agosto de 2026 – Sábado, às 20h
Temporada:
Até 4 de outubro - Sábados e domingos, às 20h
Duração:
105 min. Classificação: 18 anos. Gênero: Drama musical.
Ingressos:
R$ 60,00 e R$ 30,00 (meia-entrada).
Vendas
online: www.sympla.com.br/produtor/teatrodoincendioteatroaostragos
Bilheteria:
1h antes das sessões.
Esquenta Baal: Somente para quem
adquirir ingressos antecipados pela plataforma.
Acessibilidade:
sim. Ar condicionado: sim.
Local:
Teatro do Incêndio
Rua
Treze de Maio, 48 - Bela Vista/Bixiga. São Paulo/SP.
Contato: (11) 97592-4743 (Vanda Dantas).
Instagram:
@teatrodoincendiooficial.
Estacionamento
conveniado com desconto: Rua Treze de Maio, 113.
Teatro do Incêndio – Espetáculos /
Cronologia
Baal - O Mito da Carne, por Zé Celso (programa da estreia, em 1996)
“Baal deus adorado
pelos seminatas como a deusa do dia de hoje: Iansã, deusa do furacão. Os
profetas judeus que anunciavam o deus Mona, de concepção “elevada”, detestavam
este deus que renascia incessantemente sagrando a vida orgânica, as forças elementares
do sangue, da sexualidade e da fecundidade. Baal é a tendência de toda
civilização que se torna rígida, ao eterno transtorno de tornar a exaltar as
forças instintivas incorretas, mas responsáveis pela continuidade da vida.
No início do século
foi xamado pelo poeta cantor de 21 anos, vindo com Lulu, do espírito da terra,
do ventre das florestas negras para Munich, capital de capitais que fabricam a
linha mecânica da civilização industrial do nosso século. Baal morreu só, na
lama, olhando as estrelas e fazendo descaso. Brecht renasceu de novo & real
na luta contra o capital. Mas, o cogumelo de Baal ficou na bosta fundamental de
toda a sua dramaturgia, até na gula de Galileu. Deu vida de carne a todas as
criaturas que mesmo no distanciamento estavam sempre como Baal cagando, olhando
as estrelas e debochando.
Mas B.B. não queria a
solidão. Buscou a cia, a ágora, o todo mundo em companhia de muitos baals,
buscando e fracassando na conquista na condição de todos os poderes aos gulosos
da vida. Seus personagens, comida e comidos, heróis comi-trágicos das altas
curvas de subida e descida do capital redentora do Deus único inatingível.
Bertolt Brecht não matou Baal, o que morreu olhando as estrelas, ficou no
ventre de B.B. e como um guia, para que não se perdesse o seu poeta, e a carne
viva de suas entidades. Até o comunismo de BB. tinha graça orgástica de Baal, a
do primeiro fruto do pecado, que é de onde vem toda a árvore da vida.
Hoje, em São Pã, fim
de século e milênio, Marcelo, o Fonseca xama Baal. No elevado mundo dos juros
altos, das sublimações messiânicas, das florestas de arrasadas, em que até
atores viram censores das elevações consensuais, compassivas dos que estão
editando o globo politicamente correto, monoteísta, seco, asséptico.
Dos oasys respiração
da terra, num teatro, esse Baal retorna no Brasil como o cogumelo, como muda,
plantação de outra floresta e desta vez não vai morrer de solidão, nem vai ter
que se esconder nos poucos vícios de seus personagens. Vai ter o luxo de todos.
Este Exu que fez
nascer, Brecht, como poeta pro mundo, é invocado hoje, no domínio total da
economia, da buro e tecnocratia das altas esferas que em nome do Deus único,
seu Jeová $real, jogam a multidão cortada na lama. Mas da lama vem o espírito
da terra, do seu inferno renascem seus exus, Baal, Dionizios, Lulus, suas fomes
e suas comidas. Há um renascimento, mais que político, social, religioso, de
classe ou econômico, há um renascimento vital, erótico, das forças bárbaras,
guerreiras, humanas que vão montar sobre estes cavalos da tecnologia de ponta e
tomarem o phoder.
No eterno transtorno
das forças do espírito da terra estão de volta anunciando a humanidade ligada a
sua bestialidade à sua origem vegetal, lembrando que não tem somente 2000 anos
e que não nasceu para amar um só Jesus. Jesus tomou cogumelo com os Tahahumaras
como conta Artaud que vem revindo com seu centenário.
Jesus é um exu como
Baal que não mais vai ser crucificado, mas explodido dos quatro cantos da cruz
para ser comido por toda a humanidade na lama que ressuscita neo arcaica e
tecnizada, nos primeiros sinais de suas primeiras plantinhas replantadas, nos
canteiros quase invisíveis dos teatros. Seus heróis renegados pelas religiões
cifilizadoras chegam. Rito do Deus humano ao vivo do poeta traz Baal.
Que seja bem comido
por Marcelo Fonseca para se dar de comer em banquete como um grande
acontecimento social desta obra primeira, desta primeira comunhão de Bertolt
Brecht, que, mesmo que morra Baal renasça com Bertolt Brecht, Marcelo Fonseca e
nós todos.
(José
Celso Martinez Corrêa | Paraíso, 4 de Dezembro de 1995)
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