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foto de Geovanna Gelan |
Montagem calcada em pesquisas nas
escolas da região de Heliópolis tem estética lúdica e poética. Evill Rebouças, indicado ao Prêmio Shell de 2013 por Maria Miss, assina a dramaturgia.
Com direção
de Miguel Rocha e dramaturgia de Evill Rebouças, a Companhia
de Teatro Heliópolis estreia no dia 22 de agosto, sábado, o
espetáculo A Inocência do Que Eu (Não) Sei, na Casa de Teatro
Maria José de Carvalho, bairro Ipiranga, às 20 horas. A temporada, que
segue até o dia 4 de outubro, tem entrada franca.
O
espetáculo é resultante do projeto Onde O Percurso Começa? Princípios de
Identidade e Alteridade no Campo da Educação, que envolve uma
intensa pesquisa teatral e de campo em três escolas públicas de Heliópolis,
viabilizado pela Lei do Fomento ao Teatro Para a Cidade de São Paulo. O
processo contou com a colaboração Alexandre
Mate como provocador de teatro épico e de Carminda André como provocadora de teatro performático.
O enredo apresenta
quatro trajetos que mostram os desejos e as contradições de pessoas em busca de
aprendizagem: o Menino Rapaz que vence; a Feliz Mulher que se adapta; o Caminhante
em busca do saber; e a Mulher que come maçãs. De modo poético e irônico a peça
extrapola o universo escolar para discutir relações humanas mediadas por
dispositivos de controle social e econômico.
Ainda
que tenha o universo escolar como tema, a peça vai para além do caráter
arqueológico encontrado em campo, pois traz para a cena personagens que vivem
situações de aprendizado na vida. Assim chega à cena um painel que revela as
humanidades de personagens. O diretor Miguel Rocha explica que “a experiência dos
atores está em cena e mostra o que eles querem dizer ao mundo a partir do tema
escolhido”.
O Menino Rapaz que vence
(David Guimarães) é um jovem ingênuo
que vive as primeiras experiências na escola. Seu perfil é o do garoto
‘certinho’ que passa a reproduzir os parâmetros sociais que vivenciou. A Feliz Mulher
que se adapta (Klaviany Costa)
registra fortes experiências diante das ‘pauladas’ e dos traumas vividos, restando-lhe
apenas adaptar-se e moldar a sua personalidade para sobreviver em um sistema
educacional perverso.
O Caminhante em busca
do saber (Donizete Bomfim) é um
andarilho que vem, provavelmente, do sertão nordestino. Ele entende sua vida
mais pela experiência que pela educação formal. Seu pai, um homem simples,
dizia-lhe que ‘precisava correr em busca do saber’. O percurso da Mulher que come
maçã (Dalma Régia) não é apresentado
somente pela dramaturgia da fala. São as ações que traçam sua trajetória e geram
seu discurso. Nos “movimentos” dessa personagem o espectador se depara com as
questões da mulher que tem sede pelo conhecimento popular em detrimento do
conhecimento acadêmico.

O
cenário (de Clau Carmo) foi criado a
partir da perspectiva do preto e branco, tendo como base um piso preto e um
grande painel em quadro negro, além dos elementos de cena. Também assinado por
Carmo, o figurino tem a proposta de trabalhar o caráter de uniformidade nas
cores e nos modelos, deixando de lado as características individuais das
personagens. Segundo Miguel Rocha, “A Inocência do Que Eu (Não) Sei propõe janelas
para o espectador construir perspectivas próprias sobre o tema investigado, e
para que isso aconteça foi necessário estabelecer lacunas na dramaturgia e na
encenação”.
Ficha
técnica
Espetáculo: A
Inocência do Que Eu (Não) Sei
Criação em processo colaborativo
Com a Companhia de Teatro Heliópolis
Dramaturgia:
Evill Rebouças
Direção:
Miguel Rocha
Direção
musical e preparação vocal: William
Paiva
Elenco:
Dalma Régia, David Guimarães, Donizete Bomfim e Klaviany Costa.
Músicos: William Paiva e Caio Madeira
(piano), Marcos Mota e Fabio Machado (violoncelo) e Giovani Liberato (guitarra
e sonoplastia).
Cenário
e figurino: Clau Carmo
Iluminação:
Toninho Rodrigues
Provocação
- teatro épico: Alexandre Mate
Provocação
- teatro performático: Carminda André
Colaboração
no processo provocativo: Diego Marques (palestra/performatividade), Luciano Mendes
de Jesus e Fabiana Monsalú (corpo) e Maria Fernanda Vomero.
Assistente de direção e preparação corporal:
Lucia Kakazu
Direção de produção: Dalma Régia
Assistente
de produção: Fabiana Josefa
Designer
gráfico: Camila Teixeira
Assessoria
de imprensa: Eliane Verbena
Serviço
Temporada: 20 de agosto a 4 de outubro
Local: Casa de Teatro Maria José de
Carvalho
Endereço: Rua Silva Bueno 1533, Ipiranga/SP. Tel: (11) 2060-0318
Gênero: Drama. Duração: 90 min. Classificação: 14 anos
Ingressos: Grátis (retirar 1h antes das sessões)
Horários:
sábados (às 20 horas) e domingos (às 19 horas)
80 lugares. Apresentações para escolas públicas: quintas
e sextas-feiras – informações pelo telefone ou ctheliopolis@ig.com.br.
Não possui acessibilidade, estacionamento e ar
condicionado.
Companhia de Teatro Heliópolis
A Companhia de Teatro Heliópolis surgiu no
ano 2000, reunindo jovens da comunidade, sob direção de Miguel Rocha e apoio da
UNAS (União de Núcleos e Associações de Moradores de Heliópolis e Região), com
o objetivo de montar o espetáculo A Queda para o Alto, baseado no
romance homônimo de Sandra Mara Herzer. Entre a primeira peça e os trabalhos
mais recentes, foram 15 anos de conquistas, dificuldades e aprendizados.
"O teatro que optamos fazer está em sintonia com nossas vidas, em profunda
conexão com elas", afirma o diretor.
A companhia já realizou sete espetáculos,
todos criados em diálogo com os anseios e as vivências que permeiam a realidade
de Heliópolis. Depois de A Queda Para o Alto, vieram as peças Coração
de Vidro (2004) e Os Meninos do Brasil (2007). Entre 2008 e 2009,
com o patrocínio da Petrobras, foi iniciado o Projeto Arte e Cidadania
em Heliópolis, visando o aprimoramento artístico dos jovens atores, que se
constituiu de quatro fases (formação, pesquisa, criação e apresentação), com
encontros diários e aulas dadas por profissionais convidados. O projeto teve
três módulos e cada um resultou em um espetáculo: O Dia em que Túlio
Descobriu a África (2009); Nordeste/Heliópolis/Brasil – Primeiro
Ato (2011) e Um Lugar ao Sol (2013). Passaram pelo processo nomes
como Silvana Abreu, Paulo Fabiano, Raquel Ornellas e Marcelo Lazzarato, entre
outros. Nesse período, a companhia também montou a peça Eu Quero Sexo...
Será que Vai Rolar? (2010).
Depois de várias formações, a Companhia de
Teatro Heliópolis é formada hoje pelo núcleo central constituído por Dalma
Régia, Davi Guimarães, Donizeti Bonfim dos Santos e Klaviany Costa, além do
diretor Miguel Rocha, todos moradores da comunidade. Desde 2010, a trupe ocupa
sede própria: a Casa de Teatro Maria José de Carvalho, um imóvel cedido pela
Secretaria Estadual de Cultura e situado no Ipiranga, bairro vizinho a
Heliópolis. Foi ali que a companhia recebeu o diretor Mike van Alfen, do grupo
holandês MC Theater, formado por jovens descendentes de imigrantes, para uma
série de workshops como parte de um intercâmbio artístico internacional. O
projeto resultou no espetáculo A Hora Final, apresentado por atores
brasileiros e holandeses na sede do MC Theater, em Amsterdã.
E, em comemoração aos 15 anos de sua
trajetória, marcada pela resistência artística e pela perseverança, a companhia
realizou, em agosto de 2015, a 1ª Mostra de Teatro em Heliópolis, com o
objetivo de oferecer um panorama dos espetáculos criados por grupos periféricos
que desenvolvem suas atividades em comunidades populares na cidade de São
Paulo.
A Companhia de Teatro Heliópolis foi
contemplada pela 25ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a
cidade de São Paulo com o projeto Onde o Percurso Começa? Princípios de Identidade
e Alteridade no Campo da Educação, com duração 12 meses, que
resultou na montagem A Inocência do
Que Eu (Não) Sei. Evill Rebouças foi o dramaturgista convidado;
os pesquisadores Carminda Mendes André e Alexandre Mate, ambos do Instituto de
Artes da UNESP, conduziram os ciclos de estudos teóricos com o grupo; Lúcia
Kakazu e Wiliam Paiva foram responsáveis, respectivamente, pela preparação
corporal e musical dos artistas.
Paralelamente ao atual trabalho, a companhia
prepara outro espetáculo que tem como eixo central o medo. Inspirada em relatos
e casos ocorridos em Heliópolis, também situados no contexto urbano em geral, a
nova peça pretende evidenciar a questão da violência subliminar, aquela que não
está visível, mas se mantém contínua e velada.
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