terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Maravilhoso Teatro Ambulante da Academia de Palhaços leva arte popular e circo-teatro a bairros paulistanos

Com direção de Fernando Neves (Os Fofos), O Maravilhoso Teatro Ambulante da Academia de Palhaços inicia, em novembro, uma temporada itinerante com cinco espetáculos diferentes em ruas de 10 localidades de diversas regiões da capital.

 A trupe permanece por cinco dias em cada lugar e mostra uma montagem diferente a cada dia, que é encenada em uma Kombi-Palco. O repertório é formado por clássicos do circo-teatro e peças de autores populares, passando pelo drama circense, pantomima, teatro de revista e comédia de costumes.

Os espetáculos em questão são: O Teatro Mambembe do Dr. Fracassa, versão do grupo para O Mambembe, burleta (comédia musicada) de Artur Azevedo; Lágrimas de Mãe, uma adaptação do dramalhão de José Soares; As Desgraças de uma Criança, comédia de Martins Pena; Nosferatu: O Vampiro das Sombras, pantomima baseada nos filmes homônimos de Friedrich Murnau e Werner Herzog; A Paixão de Cristo Segundo São Rubinho, uma versão inusitada do clássico drama religioso da tradição popular.

Desde 2007, o grupo de atores da Academia de Palhaços, egressos do curso de artes cênicas da Unicamp, produz espetáculos a partir de sua pesquisa sobre palhaço de picadeiro e circo-teatro. Agora, com O Maravilhoso Teatro Ambulante a companhia tem olhar voltado para o universo do ator popular e faz um mergulho em sua dramaturgia e em seu caráter itinerante. A Kombi da trupe foi adaptada e se transformou em um teatro ambulante e autônomo, a Kombi-Palco, que carrega no porta-malas sua própria maquinaria, cenários, figurinos e instrumentos musicais.

Fernando Neves e a Academia de Palhaços já trabalharam juntos na Unicamp e na montagem de O Mistério Bufo, em 2012. Segundo o diretor, O Maravilhoso Teatro Ambulante da Academia de Palhaços traz o necessário olhar libertário para a arte: “o circo é antropofágico e nesse trabalho todos os estilos são transportados para a linguagem circense”. Ele explica que os espetáculos, pinçados de estéticas diversas, têm como unidade a coerência como o a essência do circo-teatro.

Sobre o trabalho com os atores, Fernando explica que o tipo da personagem já determina o caminho e já vem impregnado pelo tom que ele deve ter. “No circo o trabalho é feito com linhas estabelecidas; há um rigor muito grande em seguir os caminhos determinados pelas personagens”. E finaliza: “o olhar é sempre para o público porque ‘aqui’ reza a cartilha do circo-teatro”.

Além dos espetáculos, a Academia de Palhaços promoverá um intercâmbio artístico em todas as localidades por onde passar com O Maravilhoso Teatro Ambulante, nos cinco dias de permanência. Serão convidados artistas do lugar e demais interessados. O espetáculo, criado conjuntamente, será apresentado no último dia, protagonizado pelos moradores.

Roteiro de apresentação dos espetáculos em cada localidade

1º dia - O Teatro Mambembe do Dr. Fracassa (50 min)
2º dia - Lágrimas de Mãe (35 min)
3º dia - As Desgraças de Uma Criança (55 min)
4º dia - Nosferatu - O Vampiro das Sombras (45 min)
5º dia - A Paixão de Cristo Segundo São Rubinho (50 min)

Programação – novembro e dezembro de 2014

8 a 12 de novembro - Vila Anglo Brasileira
Sábado a quarta-feira – às 20h. Grátis
Parceria com o Condomínio Cultural Mundo Novo
Rua Mundo Novo, 342. Zona Oeste

18 a 22 de novembro - Ermelino Matarazzo
Terça-feira a sábado – às 20h. Grátis
Parceria com as ONGs Varre Vila e Mundo em Foco
Rotatória da Rua Cinturão Verde, S/N. Vila Santa Inês. Zona Leste

3 a 7 de dezembro - Ermelino Matarazzo
Quarta-feira a domingo – às 20h – Grátis
Parceria com as ONGs Varre Vila e Mundo em Foco
Ecoponto da R. Arnould Lima, S/N (próx. ao Parque Central). União de Vila Nova. ZL.

10 a 14 de dezembro - Jardim Jaú
Quarta-feira a domingo – às 20h. Grátis
Parceria com a Subprefeitura da Penha
Parque Linear Tiquatira. Av. Governador Carvalho Pinto, S/N – Zona Leste

15 a 19 de dezembro – Vila do Sol
Segunda a sexta-feira – às 20 horas
Parceria com o CEU Vila do Sol
CEU Vila do Sol. Avenida dos Funcionários Públicos, 369. Zona Sul

Programação de janeiro/2015 – será divulgada oportunamente.

Espetáculos - sinopses

O  Teatro Mambembe do Dr.  Fracassa
A montagem é uma versão da Academia de Palhaços para O Mambembe, der Arthur de Azevedo, com pitadas de comedia dell’arte. Nesta revista o tema principal o próprio teatro e as multifacetas do artista que tem que se virar para colocar o pão na mesa. Uma trupe de atores mambembes faz uma viagem para apresentar seu trabalho, mas o dinheiro acaba e algo deve ser feito para conseguirem voltar para sua cidade natal. O  Teatro Mambembe do Dr.  Fracassa, Peça de abertura da temporada, conta sua história através de músicas tocadas e cantadas pelos próprios atores - violino, banjo, acordeon, sousafone (uma tuba especial para marchas) e washboard (tábua de lavar roupa usada como instrumento de percussão).

Lágrimas de Mãe
O dramalhão Lágrimas de Mãe, de José Soares, conta as tristezas de uma pobre mãe que sofre os maus tratos de seu filho ingrato, enquanto espera a volta do outro filho, o bom e trabalhador, que fora trabalhar além da fronteira para ganhar dinheiro e mudar de vida. A peça mescla referências do sertão agreste nordestino e do México com sua Fiesta de los Muertos e Nossa Senhora de Guadalupe. Esses dois lugares nem tão opostos assim, permeiam a estética da peça. O colorido da santa contrasta com o tema dramático do texto peça.

As Desgraças de Uma Criança
De Martins Pena, “As Desgraças de uma Criança” traz à cena uma sequência de quiproquós e divertidas histórias que se encontram na noite da Missa do Galo. Os arquétipos da comédia dell’arte e as sucessões de desencontros fazem da peça um humor leve e ágil. Uma jovem mãe apaixonada, um sacristão desviado, um velho libidinoso, um soldado picareta e a empregada bagaceira se revezam para cuidar do pobre bebê que, apesar de estar no título da peça, acaba ficando totalmente em segundo plano.

Nosferatu: o Vampiro das Sombras
Um clássico do expressionismo alemão, esta adaptação foi baseada em dois filmes ícones do cinema mundial: Nosferatu - Eine Symphonie des Grauens (1922), dirigido por Friedrich W. Murnau e Nosferatu - Phantom der Nacht (1979), de Werner Herzog. A pantomima Nosferatu: O Vampiro das Sombras conta a história de um corretor de imóveis que vende a casa ao lado da sua para o estranho Conde de Orlok. Sem saber, o ingênuo corretor traz para sua cidade a peste e a morte personificadas em um vampiro terrível, o lendário Nosferatu. Por ser uma pantomima, a peça é muda e conta apenas com narrações em off para situar a ação. Os atores usam o corpo expressionista para dialogar com a música e criar as atmosferas de terror e suspense.

A Paixão de Cristo Segundo São Rubinho
Esta é uma história universal, o espetáculo teatral mais montado na história do país. O texto foi escrito pela própria Academia de Palhaços, com referências dos mais diversos filmes e textos teatrais, dentre eles, A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorcese. A Paixão de Cristo Segundo São Rubinho conta esta célebre história a partir de um fictício evangelho apócrifo escrito por São Rubinho, um suposto décimo terceiro apóstolo que, além de discípulo de Cristo, era ator. É uma tragicomédia, cuja preocupação maior não é contar a história, mas sim encená-la e trazê-la para perto do público. Cristo, por exemplo, mescla em suas falas frases de Gandhi e Martin Luther King Jr.

Ficha técnica

Projeto: O Maravilhoso Teatro Ambulante da Academia de Palhaços
Elenco: Breno Tavares, Bruno Spitaletti, Laíza Dantas, Paula Hemsi e Rodrigo Pocidônio
Direção: Fernando Neves
Assistência de direção: Kátia Daher
Cenário: Breno Tavares e Os Demolidor e as Pantera
Maquiagem e figurino: Bruno Spitaletti e Carolina Hovaguimian
Iluminação: Guilherme Bonfanti e Paula Hemsi
Assistência de iluminação: Grissel Piguillem
Desenho de som: Kako Guirado e Laiza Dantas
Assistência de desenho de som: Michel de Oliveira (Xerxes)
Composições originais: Bruno Spitaletti
Locuções: Eduardo Reyes
Gravação e mixagem de som: Tiago de Mello
Aulas de canto: Fernanda Maia
Estrutura e visagismo da Kombi-Palco: Leopoldo Pacheco, Breno Tavares e Laíza Dantas
Funilaria da Kombi-Palco: Oficina Artesanal
Fotografia: Lígia Jardim
Design gráfico: Carlos Roncoletta Jr.
Produção: Mauricio Inafre e Rodrigo Pocidônio
Assistência de produção: Régis Feliciano
Apoio: Os Fofos Encenam
Suporte administrativo: Cooperativa Paulista de Teatro
Coordenação geral: Academia de Palhaços
Realização: Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo e Academia de Palhaços

O Teatro Mambembe do Dr. Fracassa - Autor: Arthur de Azevedo. Arranjo e direção musical: Fernando Esteves. Adaptação dramatúrgica: Academia de Palhaços.
Lágrimas de Mãe - Autor: José Soares. Violonista: Marco Spitaletti
As Desgraças de Uma Criança - Autor: Martins Pena
Nosferatu – O Vampiro das Sombras - Dramaturgia: Academia de Palhaços. Ilustrações: Paloma Franca Amorim. Animação: Carlos Roncoletta Jr.. Narração: Eduardo Reyes
A Paixão de Cristo Segundo São Rubinho - Texto: Academia de Palhaços

Academia de Palhaços
A Academia de Palhaços surgiu em 2007 quando cinco estudantes do curso de Artes Cênicas da Unicamp decidem mergulhar no universo da linguagem cômica. Em 2008, montam o primeiro espetáculo, A Academia de Palhaços com orientação de Luís Monteiro. Em 2009, o grupo estreou a comédia clássica Vespas, de Aristófanes, com direção de Isa Etel Kopelman, que integrou a tese de doutorado da diretora. Em 2010, pelo Edital Chamamento SESI - SP, a companhia produziu o infantil Reciclonices, de Enéas Carlos, com direção de Charles Giraldi. O espetáculo fez mais de 50 apresentações viajando pelo Rio de Janeiro e por São Paulo. Em 2012, sob a direção de Fernando Neves, o grupo estreou O Mistério Bufo, de Vladimir Maiakovski, que fez breves temporadas no Teatro Popular João Caetano, na Sala Olido e na Funarte-SP, além de viajar por mais de 10 cidades do interior paulistano. No mesmo ano, ao lado do ator e diretor José Roberto Jardim, a Academia de Palhaços se aventurou pelo universo shakesperiano, a partir da obra Titus Andronicus, e realizou uma performance no Espaço dos Fofos. No início de 2013 o grupo retornou às suas origens com a reencenação de seu primeiro espetáculo: A Academia de Palhaços se Apresenta, que foi criado coletivamente, em 2008, e ganhou versão dirigida por Fernando Neves, além de novo cenário, novo figurino e uma banda ao vivo. 

Selvagens - Homem de Olhos Tristes tem sessões beneficentes em prol da Unibes

As sessões dos dias 5 e 6 de novembro – quarta e quinta-feira, às 21 horas – do espetáculo Selvagens - Homem de Olhos Triste será em prol UNIBES (União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social). O espetáculo – do austríaco Händl Klaus e dirigido por Hugo Coelho está em cartaz no Club Noir. O ingresso pode ser trocado na hora por um quilo de alimento não perecível ou por uma peça de roupa em bom estado.

Inédita no Brasil, a peça traduzida por Christine Röhrig tem elenco formado por Rubens Caribé, Edu Guimarães, Vitor Placca, Flavia Couto e Henrique Taubaté Lisboa. A temporada segue até o dia 18 de dezembro.

Selvagens - Homem de Olhos Triste alterna climas de mistério, conflito, violência, ironia, acolhimento e sensualidade. O enredo fala sobre um médico que, após saltar do trem devido ao calor escaldante, tenta chegar ao seu vilarejo tendo que conviver com a contradição de pessoas que acabara de conhecer e com a aridez de um lugar marcado pelo abandono e pelo esquecimento.

Espetáculo: Selvagens – Homem de Olhos Tristes
Texto: Händl Klaus
Tradução: Christine Röhrig
Direção: Hugo Coelho
Elenco: Rubens Caribé, Edu Guimarães, Vitor Placca, Flávia Couto e Henrique Taubaté Lisboa.
Preparadora corporal: Inês Aranha
Assistência de direção: Fernanda Lorenzoni
Cenografia e figurino: David Schumaker
Música original: Ricardo Severo
Iluminação: Fran Barros
Programação visual: Fernanda Lorenzoni
Fotografia: Helô Bortz
Diretor de produção: Henrique Benjamin
Produção executiva: Fernanda Lorenzoni
Produção administrativa: Fábio Hilst
Realização: Benjamim Produções

Sessões beneficentes: 5 e 6 de novembro (quarta e quinta, às 21 horas)
Ingresso: 1 kg de alimento não perecível ou 1 peça de roupa em bom estado
Local: Club Noir
Rua Augusta, 331. Consolação/SP. Tel: (11) 3255-8448
Temporada: 29 de outubro a 18 de dezembro
Dias e horário: quartas e quintas - às 21 horas
Ingressos: R$ 40,00 (meia: R$ 20,00) – Vendas na bilheteria: 1h antes das sessões
Gênero: drama. Duração: 60 min. Classificação etária: 12 anos.
Capacidade: 50 lugares. Aceita dinheiro e cheque.

Ar condicionado. Acesso universal. www.ciaclubnoir.blogspot.com

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

POST SCRIPTUM, DE SAMIR YAZBEK, TEM LEITURA DRAMÁTICA NO MASP

 No dia 10 de novembro, segunda-feira, acontece a leitura dramática de Post Scriptum, texto e direção de Samir Yazbek, no MASP, às 19h30, integrando o projeto Letras em Cena. Participam da leitura os atores Helio Cicero, Bete Dorgam, Marco Antônio Pâmio e Pedro Augusto Monteiro.

Após A Terra Prometida (entre os dez melhores espetáculos de 2002, segundo O Globo) e As Folhas do Cedro (Prêmio APCA 2010 de melhor autor), Yazbek volta ao tema de suas origens libanesas com esse texto. Dessa vez, discutindo a história recente do Oriente Médio, desde a fundação do Estado de Israel, passando pelos conflitos entre palestinos e israelenses, entre muçulmanos e judeus, a queda das torres gêmeas etc., até chegar ao Estado Islâmico.

Evitando maniqueísmos e didatismos de qualquer espécie, a peça é uma parábola teatral que ecoa os mais variados tipos de intolerância nas sociedades modernas, corroborando a interpretação bíblica de que Isaac, o pai dos judeus, e Ismael, o pai dos árabes, são filhos de Abraão, e que ambos habitavam as mesmas terras que hoje são motivos de contendas naquela região.

Post Scriptum é um texto que parte de um fato ocorrido com a família do autor: o reaparecimento, em São Paulo, de um imigrante libanês dado como morto, após um acidente aéreo na Amazônia.

A peça - da Companhia Teatral Arnesto nos Convidou, responsável por importantes montagens como O Fingidor (Prêmio Shell 1999 de melhor autor) e As Folhas do Cedro - tem estreia prevista para o início de 2015, em São Paulo.

Post Scriptum reúne profissionais como o cenógrafo e figurinista André Cortez e o iluminador Domingos Quintiliano (que já trabalhou com a Companhia em outra montagem), além da produtora e administradora Silvia Marcondes Machado (Mecenato Moderno).

ENREDO

Invertendo o paradigma shakespereano, presente em Hamlet, o imigrante libanês (Helio Cicero) representa uma espécie de fantasma às avessas, que vem clamar por paz, e não por vingança.

A ideia é que a iminência da morte, para esse homem, o faz voltar para casa modificado, a ponto de rever seu arraigado anti-semitismo.

Ocorre que, após seu retorno, ele precisa lidar com o mundo que deixou ao partir, sobretudo no âmbito familiar, consolidado segundo seus princípios.

Primeiro, tem de enfrentar seu filho mais velho (Marco Antônio Pâmio), um professor de História que cultiva um profundo ressentimento em relação aos judeus, incutido por seu pai desde a infância, e que, no início da peça, se prepara para viajar ao Oriente Médio para lutar por seus “irmãos” palestinos.

Depois, precisa aceitar que seu filho caçula (Pedro Augusto Monteiro) se apaixonara por uma judia que vive em Jerusalém, que ele conhecera por meio de um vídeo no Youtube, em que ela conta que foi ferida por uma bomba jogada por um combatente islâmico.

Finalmente, tem de redescobrir sua relação com a esposa (Bete Dorgam), uma imigrante libanesa que sacrificou seus sonhos de vida, em função da ideologia do marido.

SIMBOLISMO

Originária do latim, a expressão “Post Scriptum” é o extenso do “P.S.”, palavras que se colocam no rodapé de um escrito.

O paradoxo dessa notação é ela destacar as ideias que, apesar de estarem após o fim de um texto, costumam ser tão ou mais relevantes do que as que constam em seu decurso.

É como se quem escrevesse dissesse algo como: “Relembrando... Não podemos esquecer que... O que eu quero dizer é que... Arrependo-me de... Tudo que eu disse pode não ser...” etc.

O título Post Scriptum simboliza essa peça, em que um homem, por ter estado diante da morte, passa a repensar sua vida, a ponto de resgatar seus valores mais essenciais.

Serviço

Leitura dramática: Post Scriptum
Texto e direção: Samir Yazbek.
Com Helio Cicero, Bete Dorgam, Marco Antônio Pâmio e Pedro Augusto Monteiro.
10 de novembro de 2014, segunda-feira, às 19h30
Projeto Letras em Cena
MASP - Avenida Paulista, 1578
Reservas pelo email: clovistorres@uol.com.br

Samir Yazbek

foto Fernando Stankuns
Samir Yazbek é dramaturgo e diretor teatral. Consolidou sua formação com o diretor Antunes Filho. Escreveu O Fingidor (Prêmio Shell 1999 de melhor autor), A Terra Prometida (entre os dez melhores espetáculos de 2002, segundo O Globo) e As Folhas do Cedro (Prêmio APCA 2010 de melhor autor), entre outras. Algumas de suas peças já foram editadas em português. Além de seu trabalho na Companhia Teatral Arnesto nos Convidou, escreve artigos na imprensa, participa de festivais, ministra palestras, oficinas de dramaturgia etc. No exterior, fez conferências em Cádiz (Espanha) e Minnesota (EUA), e teve alguns de seus textos publicados – e encenados – em Cuba, França, Inglaterra, México, Polônia, Portugal etc. Coordena o curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Dramaturgia da ESCH (Escola Superior de Artes Célia Helena), em São Paulo (SP).

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Teatro do Incêndio estreia espetáculo musical provocativo

O Pornosamba e a Bossa Nova Metafísica: mescla linguagens teatrais e arte de vanguarda a serviço da cultura musical do verdadeiro Brasil.

Com textos de Schopenhauer, Umberto Eco e diálogos criados pelo diretor Marcelo Marcus Fonseca, estreia no dia 15 de novembro, sábado, O Pornosamba e a Bossa Nova Metafísica, montagem inédita da Cia. Teatro do Incêndio, às 21 horas. O espetáculo foi totalmente criado em sala de ensaio por experimentos de associação livre e sugestões sonoras.

Segundo o diretor, “trata-se de um espetáculo, em grande parte, auditivo que procura ‘recuperar’ o ouvido para o chiado do disco e a qualidade incomparável da música popular brasileira, revivendo mestres do samba e da bossa nova por meio de seus sentimentos”.

Marcelo Fonseca explica que o título é uma citação do poeta Roberto Piva, “padroeiro” do grupo e amigo em vida do diretor, que faz uma analogia do samba com a pornografia no sentido de que o “bom ouvido” não dá lucro às gravadoras. “Sendo assim, a boa música passa a ser pornográfica e metafísica dentro do processo de embrutecimento da sensibilidade pela necessidade de vendas, desestimulando o jovem a conhecer compositores como Tom Jobim e Geraldo Pereira, para consumir fórmulas cada vez mais pobres de ‘produtos’ de três acordes”, argumenta.

Carregada de símbolos, a encenação de O Pornosamba e a Bossa Nova Metafísica conta com uma primeira parte expressionista, conduzida por Carmen Miranda (Gabriela Morato) e Ismael Silva (Diogo Cintra). Nesta, gravações originais sintetizam uma parte da história do Brasil até “a morte” do samba junto com sua embaixatriz em crise de depressão, amparada por milhares de comprimidos.

Cenas também recriam fatos reais sobre compositores que se tornaram lendas da música brasileira, como o suicídio de Assis Valente, o soco de Madame Satã (Valcrez Siqueira) em Geraldo Pereira, que o levou à morte, e a partida precoce de Noel Rosa (Gustavo Oliveira) e sua relação com a cantora Aracy de Almeida (Rebeca Ristoff).

O Pornosamba e a Bossa Nova Metafísica lança mão ainda de outras linhas de vanguarda como Dadaísmo, Modernismo e Naturalismo para contar a trajetória da MPB e a influência da música estrangeira no comportamento e no “ouvido” do brasileiro, em cadente interatividade com o espectador.

Figura ímpar da arte musical brasileira, Vinícius de Moraes (Marcelo Marcus Fonseca) está presente em toda a encenação, transitando com leveza pelas cenas como se fosse o próprio espírito do samba, da bossa nova. Em um dado momento, por exemplo, junto com um coro de Iemanjás, ele convida a plateia a se deitar na Praia de Itapuã.

Várias outras cenas também merecem destaque. Em uma delas Ary Barroso realiza um show de calouros em um canteiro de obra; outra recria a noite em que Baden Powell (Victor Dallmann) e Vinícius compuseram o “Samba em Prelúdio”; as mortes de Maysa e Dolores Duran são retratadas em uma única cena; e a encenação da partida de Nara Leão (Elena Vago) é conduzida por um “coro de morte” que envolve sua cabeça quando o tumor explode, dando fim à sua vida.

Com a sede do Teatro do Incêndio correndo risco de desapropriação para obras do Metrô, o grupo termina a peça em plena Rua da Consolação, em frente ao teatro, como forma de protesto.

Sinopse

A música popular brasileira, como rito de morte e renascimento, é apresentada por meio de linguagens como expressionismo, naturalismo e outras vanguardas. O espetáculo - em grande parte, “auditivo” - cria uma atmosfera sonora que busca inserir o espectador no espírito do samba e da bossa nova, de forma provocativa e interativa.

Ficha técnica
Espetáculo: O Pornosamba e a Bossa Nova Metafisica
Direção e dramaturgia: Marcelo Marcus Fonseca
Direção Musical: Wanderley Martins
Co-direção musical: Vlad Rocha, Bisdré Santos e Marcelo Marcus Fonseca
Iluminação: Alex Sandro Duarte e Marcelo Marcus Fonseca
Figurinos: Gabriela Morato e Sérgio Ricardo
Fotografia e registro de processo: Don Fernando
Produção: Gabriela Morato e Cia. Teatro do Incêndio
Elenco: Gabriela Morato, Marcelo Marcus Fonseca, Sergio Ricardo, Wanderley Martins, Diogo Cintra, Gustavo Oliveira, Valcrez Siqueira, Rebeca Ristoff, Victor Dallmann, Elena Vago, Ana Beatriz Pereira, Vlad Rocha (Bateria) e Francisco Lacerda e Bisdré Santos (Violão de 7 cordas).

Serviço
Estreia: 15 de novembro – sábado – às 21 horas
Teatro do Incêndio
Rua da Consolação, 1219. Telefones: (11) 2609-8561 e 2609-3730
Temporada: sábados às 21h e domingos às 20h - Até 14/12
Ingressos: R$ 40,00 (meia: R$ 20,00) – Bilheteria 2h antes da sessão
Duração: 80 min. Gênero: Musical. Classificação etária: 16 anos.
Capacidade: 99 lugares. Acessibilidade. Aceita dinheiro e cartão de débito.
(Peça volta ao cartaz em 17/01/2015)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

'O Desvio do Peixe no Fluxo Contínuo do Aquário', de Evill Rebouças, reestreia no Teatro do Incêndio

Cia Artehúmus de Teatro subverte o espaço da representação para proporcionar ao público uma relação de experiência mais íntima com os personagens.

Após temporada de sucesso de crítica e público no Sesc Consolação, o espetáculo O Desvio do Peixe no Fluxo Contínuo do Aquário, concebido e dirigido por Evill Rebouças, reestreia no dia 11 de novembro, terça-feira, no Teatro do Incêndio, às 20 horas. A peça aborda as relações de isolamento e aproximação entre pessoas que vivem sob o mesmo teto, fala da solidão provocada pela individualidade exarcebada.

A ambientação da montagem da Cia Artehúmus de Teatro envolve o espectador logo na entrada do teatro, marcada por uma luz fraca que sugere proximidade. Os cômodos são separados por uma planta baixa e demarcados por abajures; nos quartos, observamos cadeiras e pequenos armários de aço escovado brilhante; e o peixe Tom nada sozinho em um aquário de 1,80m por 1,20m, em aproximadamente 100 litros de água. Segundo Evill Rebouças, “o peixe Tom faz lembrar a impotência, o isolamento e a pequenez do indivíduo na grande metrópole”.

Indicado, entre outros, ao Prêmio Shell de 2013 por Maria Miss (adaptação da obra de Guimarães Rosa) e vencedor do prêmio APCA (2002 e 2006), o diretor, dramaturgo e ator Evill Rebouças concebeu uma encenação, na qual atores buscam uma cumplicidade direta com o espectador ao mergulhar em temas como convivência, qualidade das relações, individualidade e interação social. Durante um ano, a companhia foi a campo, literalmente, para ver de perto como as pessoas se relacionam nos dias de hoje: albergues, conjuntos habitacionais e condomínios de luxo foram visitados. Além de observar a interação entre os moradores, o grupo entrevistou diversas pessoas para criar personagens que sigam protocolos comuns à nossa época.

“Em alguns condomínios de luxo os moradores recebem encomendas por caixa postal para não terem seus nomes revelados, enquanto que em um conjunto habitacional popular as pessoas deixam as portas abertas para os vizinhos entrarem. Nos albergues, onde muitas pessoas ficam juntas, há uma solidão imensa, pois ninguém ali se conhece realmente. Foi a partir de observações desses padrões que criamos os personagens da peça”, conta Evill.

A encenação

As histórias dos cinco personagens de O Desvio do Peixe no Fluxo Contínuo do Aquário são complementares. João Paulo (Edu Silva) e Dalva (Solange Moreno), pais de Téo (Daniel Ortega), repetem estranhamente juras de amor; estão próximos fisicamente, mas completamente distantes na relação.

A solidão é um ponto fundamental do espetáculo. Evill explica que não se trata de uma solidão da tristeza, “mas da solidão própria da individualidade exagerada, que nasce das necessidades do mundo atual, onde, por exemplo, jantamos com amigos e falamos ao celular ao mesmo tempo”. Os personagens, no entanto, se dizem felizes, são queridos, corretos e profundamente isolados e sós. “O que demarca essa situação é o ritmo acelerado de nosso tempo, legitimado por um sistema de ‘necessidades’ contemporâneas”, afirma o encenador.

Téo é o personagem que conduz e participa das ações: ele vê, opina, ironiza e provoca boas doses de humor. Apresenta, por exemplo, Anamélia (Natália Guimarães), sua irmã que está de casamento marcado com um colombiano que conheceu pelo Facebook. Clóvis, o porteiro (Cristiano Sales) é, curiosamente, o personagem mais próximo de Téo. Situação hilária acontece quando ele comenta o grau de exigência para a admissão do porteiro: Clóvis teve que fazer prova sobre as teorias do Panóptico de Foucault. Ironicamente o porteiro tem que comentar sobre os “dispositivos de controle”, teoria refletida por Michel Foucault.

Durante o processo, expedientes poéticos foram investigados para proporcionar ao espectador a ideia de “experiência”: “Contrário ao isolamento vivido pelos personagens, tratamos o espectador como sujeito presente, mas evitando o constrangimento, pois o que nos interessa é a cumplicidade”, comenta Rebouças. Para atingir esse grau de experiência e cumplicidade algumas convenções teatrais foram desprezadas:

Som - Boa parte das sonoridades do espetáculo é narrada; nesse caso o espectador terá que imaginá-las. E quando uma música é inserida na peça, isto ocorre diretamente dos aparelhos eletrônicos (notebook, tablets e celulares) dos atores. “São massas sonoras sutis, a fim de excluir a teatralidade convencional da trilha e aproximar o espectador do espetáculo”, sublinha Evill.

Luz - O mapa de luz não demarca nenhuma separação entre os personagens e a plateia. Essa escolha está relacionada aos estudos de encenação em locais alternativos, tema abordado por Evill Rebouças no livro A Dramaturgia e a Encenação no Espaço não Convencional, publicado pela Edunesp.

Projeções – O grande aquário, além de ser a morada solitária para um pequeno e único peixe, serve também para projetar imagens/telas de redes sociais, de sites de busca. Em dado momento, o peixinho solitário ganha companhia: projeta-se a gravura Peixes Grandes Comem Peixes Pequenos, do pintor holandês do século XVI, Peter Brueghel (uma leitura social sobre os modos de sobrevivência em que, geralmente, os grandes engolem os menores).

Figurino - No figurino predomina os tons pasteis/nude. Daniel Ortega trouxe para a cena uma unidade cromática e, ao mesmo tempo, a possibilidade de ver essa unidade como algo que diz respeito à falta de personalidade e ausência de individualidade perante um sistema político e social vigentes.

 

Evill Rebouças

Como dramaturgo, Evill Rebouças escreveu mais de 20 textos. Recebeu indicação a prêmios de Melhor Autor: Shell e Cooperativa Paulista de Teatro, por Maria Miss em 2013.  Ainda como dramaturgo, ganhou o APCA (por Teresinha e Gabriela - uma na rua e a outra na janela, que também rendeu indicação ao Prêmio Femsa), Femsa (por Bem do Seu Tamanho) e foi indicado ao Apetesp (por Dandara, o Marinheiro). Evill ganhou também os prêmios Estímulo de Dramaturgia da Secretaria de Estado de SP, por Quenturas do Corpo, e Vladimir Maiakovski (por Corpo Calado, Breve Pecado). Como encenador, dirigiu mais de 15 espetáculos e levou o APCA, Melhor Espetáculo Jovem, por O Santo e a Porca, e recebeu indicação ao prêmio Cooperativa Paulista de Teatro, por A Ciranda do Villa.

Como ator, atuou em mais de 20 espetáculos. Foi dirigido por Antunes Filho, José Renato, Roberto Lage, Cassio Scapin, Chico de Assis e Ricardo Karman, entre outros. Ganhou o prêmio Panamco Coca-Cola de Melhor Ator por O Santo e a Porca. É um dos fundadores da Cia. Artehúmus de Teatro. Licenciado e mestre em artes cênicas pelo Instituto de Artes da Unesp. Tendo como objeto de estudo a Cia. Artehúmus e o Teatro da Vertigem, teve seu mestrado publicado em livro pela Edunesp: A Dramaturgia e a Encenação no Espaço Não Convencional.

A Cia Artehúmus de Teatro – que já utilizou um banheiro público, seis andares de um prédio abandonado, uma lanchonete e elevadores como cenário par suas montagens – é um dos 52 grupos que apoiam e participam do movimento de ocupação no Ateliê Compartilhado Casa Amarela, na Rua da Consolação.

Ficha técnica
Dramaturgia e encenação: Evill Rebouças
Elenco: Daniel Ortega, Edu Silva, Solange Moreno, Natália Guimarães e Cristiano Sales.
Cenografia: Luis Rossi
Criação de mídias eletrônicas: O grupo
Consultoria de mídias eletrônicas: Carlos Camargo e Plataforma Wat-PUC
Figurinos: Daniel Ortega
Criação de luz: Edu Silva
Criação de sonoridades: O grupo
Preparação em viewpoints: Roberta Nazaré
Preparação de modos de recepção: Letícia Andrade
Fotos: Will Cavagnolli, Augusto Paiva, Bob Souza, José Rebouças, Melca Medeiros
Visualidades gráficas: Stela Ramos
Assistente de direção: Roberta Ninin
Contribuição poético-dramatúrgica: Glauce Gomes e Marcelo Hessel
Operadores de mídias e som: O elenco
Operador de luz: Carlos Camargo
Provocadores teóricos: Adélia Nicolete, Alexandre Mate, Beatriz Oliveira da Silva, Daniele Pimenta, Edu Silva, Letícia Mendes de Oliveira, Ligia Borges Matias, Luiza Maia, Natália Siufi, Osmar Azevedo e Ruy Filho.
Direção de produção: Cris Bezerra.
Produção: Cia. Artehúmus de Teatro.
Serviço
Espetáculo: O Desvio do Peixe no Fluxo Contínuo do Aquário
Reestreia dia 11 de novembro, terça-feira, às 20 horas
Teatro do Incêndio
Rua da Consolação, 1219 - São Paulo – Fone: (11) 2609.8561.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira), R$ 15,00 (meia). Bilheteria: 2h antes da sessão
Temporada: até 17 de dezembro
Dias e horário / Novembro - terças e quartas, às 20h.
Dias e horário / Dezembro: terças, quartas e quintas, às 20h.
Gênero: drama. Duração: 80 minutos. Lotação: 50 lugares.