segunda-feira, 30 de maio de 2016

Dulce Quental relança três primeiros discos em formato digital pela Cafezinho Edições

Reparação
Release por Arthur Dapieve

Não é incomum uma artista ficar marcada a ferro pelo seu primeiro sucesso, do qual não consegue se livrar. O modo como Dulce Quental se associou a Eu sou free, no entanto, é bem particular e sutil. Não propriamente pela música de 1984, estourada ainda a bordo do Sempre Livre. Mas pela mensagem subliminar anunciada a cada execução – tantas, tantas – nas rádios. Obra e autoria numa frase só: “Eu sou free, Sempre Livre” Ela se mostrou assim, livre, desde o momento em que aquele grupo só de garotas se desfez.

Dulce enveredou por uma carreira solo de fato autoral, seguindo o próprio nariz. Se isso significou que ela não mais se aproximaria dos patamares comerciais alcançados tão fugazmente pelo Sempre Livre, significou também uma solidez artística que sustenta, trinta anos depois, os três álbuns criados em rápida sequência, antes de um longo hiato: Délica (1986), Voz Azul (1987) e Dulce Quental (1988). O seu lançamento em formato digital nos permite reacessá-los com o benefício de uma perspectiva histórica, não imediatista, e empreender uma reparação que coloca Dulce no seu devido lugar.

Dulce está entre os melhores letristas surgidos no Brasil durante a explosão do rock. Esta não é uma afirmação de pouco peso, levando-se em conta que aquela geração 80 contava, entre outros, com Cazuza, Renato Russo, Arnaldo Antunes, Herbert Vianna e Humberto Gessinger (ela gravaria composições destes três últimos). A sua produção nos anos de afastamento dos estúdios, só encerrado com o CD Beleza Roubada, de 2004, apenas reconfirmou tal lugar de honra. Entre outras, Dulce assinou Cidade partida, com os membros do grupo Cidade Negra, e O poeta está vivo, com Roberto Frejat, parceiro em quase todas as faixas de seu recém-lançado CD, Música e Maresia.
           
Dulce Maria Rossi Quental, carioca de 1960, teve uma trajetória escolar-acadêmica que explica em parte a delicadeza e a densidade de suas letras: estudou saxofone e canto, estudou Ciências Sociais e Filosofia (e, mais tarde, Jornalismo). Musicalmente, uma influência decisiva foi o jazz escutado na infância, nos LPs do pai. Fundindo-o à música popular brasileira e ao rock nacional, ela produziu o que a crítica chamava de new bossa, tanto aqui quanto no exterior, com Everything but the Girl ou Sade.

A variedade interna de Délica, o primeiro álbum solo de Dulce, criou-lhe um problema na hora da gravação. Como produzi-lo? Os especialistas em MPB não entendiam de pop-rock, e vice-versa. O produtor Mayrton Bahia, por exemplo, tinha no currículo o bem-sucedido trabalho com a Legião Urbana. Dulce queria essa informação, sim, mas queria mais, queria bossa. Então, Mayrton chamou João Donato para fazer dois arranjos, os de Pra nós e Bossa do Bayard. Dulce chamou Titãs, Hojerizah, Os Ronaldos (que acompanhavam Lobão), Celso Fonseca, Cláudia e Beti Niemeyer para gravar. “É um álbum bem irregular, mas tem esse desejo de sair da repetição, essa honestidade”, avalia Dulce, autocrítica que só. “Tem um problema de voz também. Estava numa crise de identidade. Eu tinha estudado canto, mas não tinha absorvido a técnica de maneira natural.”

O ouvinte tem boas razões para acreditar que Dulce está sendo muito rigorosa. Há uma versão de Pros que estão em casa que acrescenta toda uma outra dimensão ao clássico underground do Hojerizah. Há outra versão, Natureza Humana, para Human Nature, sucesso na voz de Michael Jackson, que destaca o dom poético dos irmãos Salomão, Waly e Jorge. Há um dueto com o amigo Cazuza em Tudo é Mais, composição de Aldo Meolla. “Eu fiquei esperando o Cazuza no estúdio, e ele demorou tanto que fiquei de porre”, lembra Dulce. “A voz ficou afetada. Gravei de novo as duas primeiras partes e deixei o final como estava. Cheia de excessos, mas amorosa.” Tão anos 80 isso.

A sonoridade de Délica, naturalmente, também tem o clima daquela década, com truques de estúdio que ficaram no passado, mas nem por isso o disco ficou datado. Em grande parte, o mérito disso é da interpretação de Dulce, voz bem medida e fluente, que dá a liga a gravações tão distintas. Como faria em toda a sua carreira solo, ela opera pequenos cortes na dinâmica das palavras, pequenos cortes que paradoxalmente somam.

Outra boa parte da sobrevivência de Délica se deve à compositora Dulce. Todas de sua lavra, as três últimas faixas – Delicado Demais, Bossa do Bayard e A Bela Morte (esta com Beti Niemeyer) – apontam caminhos que ela apuraria no disco seguinte. O sax de Ricardo Rente, por exemplo, ecoa o melancólico clima bossa’n’jazz’n’blues presente em versos como “O amor é delicado demais / E a gente sente bruto demais”. Bingo.

Se a concentração de talentos e interesses tornava Délica um álbum eclético, uma palavra usada às raias da vulgarização nos anos 80, a Dulce Quental que gravou Voz Azul estava muito mais focada e senhora de si, consciente de que menos costuma ser mais. A faixa-título, que abria o álbum, tinha um arranjo singelo e forte, puxando para um blues rural nos violões e na discreta programação de bateria do coprodutor Herbert Vianna (junto com Mayrton Bahia, de novo, e Celso Fonseca) e no violoncelo de Jaques Morelenbaum. Os versos, como sempre, eram certeiros: “Quem canta o blues/ Não tem nada a perder/ De quem canta o blues/ Nada mais pode ser tirado”.

O resto de Voz Azul mantinha o clima proposto pelo título. Apesar dos três produtores, Dulce passava parte do tempo sozinha do estúdio com o então técnico de som José Celso Guida, hoje sócio de uma plataforma de distribuição de música para cinema e publicidade. Ela se beneficiou da experiência na gravação do álbum anterior e sentiu-se mais segura com as aulas de Eládio Perez Gonzales, professor de canto de Elizeth Cardoso e Nara Leão. A segurança está também na segunda faixa, a lírica e irônica Não Atire no Pianista (“Por causa da cantora”), outra composição só de Dulce, que resultou numa bela gravação, produzida por Mayrton, com destaque para o baixo de Tavinho Fialho.

Um pouco adiante em Voz Azul está uma das faixas favoritas de Dulce, Correspondence, baseada em carta que recebeu de um caso parisiense, cantada em francês. Ao seu jeito cool, ela capta bem a dramaticidade da música daquele país, com os teclados tocados por Celso Fonseca fazendo as vezes de acordeão. Escuro Amor, de autoria de Ciro Pessoa, um dos Titãs originais, fechava o antigo lado A do LP, com outro blues, este levado no piano de Nico Rezende. Outro arranjo sutil, gravados “ao vivo”, diretamente.

O antigo lado B abria com aquele que foi o maior sucesso da carreira solo de Dulce, Caleidoscópio, de Herbert Vianna, música que os próprios Paralamas só viriam a gravar três anos depois, na coletânea Arquivo. A versão de Dulce, porém, ficou mesmo com o jeitão de “a original”, tamanha a felicidade da interpretação e do arranjo. Caleidoscópio entregava o bastão para Essa Gravação se Autodestruirá em 5 Seg, de Marcelo D. Ramer, outro dos vários pontos altos de Voz Azul. É mais um blues, estilizado, tenso. Alguém à espera de um telefonema que não soará no decorrer de uma noite inteira. “O amor está por um fio, por uma ligação”, canta Dulce, interrompida por um inspirado solo de guitarra de Celso Fonseca. “Se você não atender, sabe o que sou capaz de fazer.” Bem, àquela altura, o público já sabia muito bem do que Dulce era capaz.

O terceiro álbum solo de Dulce Quental levava apenas o seu nome. Uma identidade já havia sido fixado. Longe – uau, quatro anos! – estavam os tempos do Sempre Livre. No meio do caminho havia dois discos que a tiraram da alçada do mero pop e a alçaram ao patamar de uma cantora-autora cheia de referências refinadas ao jazz, ao blues e à bossa nova. Na verdade, essa assinatura tinha ficado tão marcada em tão pouco tempo que Dulce Quental, o disco, produzido por Luiz Carlos Maluly, que trabalhara com o RPM, e arranjado por Dino Vicente, que trabalhara com Arrigo Barnabé, deu uma cambalhota e tentou voltar à posição inicial: a de ser uma obra mais comercial. A gravadora assim queria e, por conta de um projeto não aprovado, de um LP de parcerias com Celso Fonseca, Dulce topou o desafio. O resultado foi muito diferente de Délica e de Voz azul.

Se o primeiro LP era uma tentativa extremamente honesta de explorar possibilidades e achar um caminho solo, se o segundo LP era uma ensaio sobre elegância, sutileza e cosmopolitismo, Dulce Quental buscava retomar um lugar nas paradas – de uma maneira solar. Em comum com os antecessores, havia a presença de uma música de uma banda de rock da mesma geração: Délica tivera Pros que Estão em Casa, de Rômulo Portela e de Flávio Murrah, guitarrista do Hojerizah; Voz azul, Caleidoscópio, de Herbert Vianna, dos Paralamas; e Dulce Quental teria Terra de Gigantes, de Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Hawaii. A sugestão partira de Carmela Forsin, então empresária tanto de Dulce quanto do trio gaúcho. Mesmo ali, porém, a angústia original se transformou em algo mais pop, menos sombrio. Funcionou surpreendentemente bem.

O modo de garimpar repertório continuava sendo característico de Dulce. “Algumas coisas chegavam a mim porque as pessoas se identificavam e enviavam”, lembra. “Eu era bastante aberta. Se escutasse e gostasse, gravava.” Em Dulce Quental foi o caso, por exemplo, de Garota, composição de dois desconhecidos, Luís Dolhnikoff e João Carlos Carvalho. A letra, de fato, poderia ter sido escrita pela própria Dulce: “Você é um pronome vazio/ Você fala, eu me calo/ Você cala/ Você cola no meu colo/ Eu me encolho.” Noutros casos, os autores eram conhecidos, como Cazuza e George Israel (A inocência do prazer) e Arrigo Barnabé (Numa praia do Brasil, da qual o londrinense participou). A intérprete que ouvimos se pensa às vezes como “uma atleta da voz” porque trocou a natação – os ombros estavam ficando largos demais, segundo seus pais – pelo canto. “Tenho que respirar à força”, avalia. “E acho que esse esforço é o que me salva...” Bem, com sensibilidade, Dulce joga uma boia para náufragos emocionais.                                                   
Arthur Dapieve

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